Era o quinto dia mais frio da semana, não chegou a cair neve, no entanto o vento frio parecia ser capaz de congelar meus ossos, mesmo vestindo roupas quentes de criança e um pequeno cachecol com a cor entre o verde e o cinza. As luvas cinza que eu usava não pareciam ser o suficiente para evitar que o frio congelasse meus dedos, uma de minhas mãos era segurada pelo meu pai que olhava para frente tristemente enquanto eu chorava.
Os sussurros de algumas pessoas podiam ser capturados de vez em quando, sussurros de pessoas tentando consolar as outras, de lamentos e de culpas, mas o que mais comentavam havia ficado claro quando uma mulher alta com a pele meio pálida por causa do frio que estava por perto falou para a pessoa ao seu lado, provavelmente seu marido:
“Pobrezinha, aquela pequenina acabou de perder sua mãe, tão nova para carregar uma dor tão grande como essa. Com apenas 6 anos...”
“O que será dela sem a mãe? O pai está completamente abalado. Ele, que amava tanto a esposa agora está com o fruto de seu amor por ela, uma menina da mesma aparência que a de Isadora, ela o lembrará da dor de perder a sua esposa por um longo tempo.” Comentou outra mulher, uma mais baixa que a anterior.
A família de minha mãe que chorava aos prantos veio até nós. O irmão mais novo de minha mãe era consolado pela mais velha, enquanto a minha vó havia me pegado em seu colo e alisava meus cabelos como forma de consolo enquanto eu chorava com o rosto afundado em seu pescoço. A dor em meu coração parecia se aumentar mais e mais como se ele estivesse prestes a se romper.
Estava claro que jamais me esqueceria daquele dia, nunca conseguiria esquecer tamanha dor que senti até o mês seguinte e o depois dele e logo o depois deste também e assim seguindo. Nunca esqueceria os dias, semanas, talvez meses em que meu pai havia se trancado em seu quarto, relutante em sair até mesmo para comer, enquanto eu era cuidada pela empregada que de vez em quando ia até o quarto de meu pai para levar-lhe algo para comer. Muito menos esqueceria os dias em que chamei pela minha mãe, na esperança de obter alguma resposta de volta, mas nada acontecera, os dias em que fiquei acordada esperando ela entrar em meu quarto com um livro em suas mãos e sentar-se na cadeira ao lado de minha cama para contar-me uma história antes de dormir e se inclinar para me dar um beijo na testa.